quarta-feira, janeiro 17, 2007

"INCORPORO A REVOLTA"
Ousadias a parte, venho nesta data escrever minhas reflexões sobre os últimos acontecimentos da nossa querida cidade sitiada do Rio de Janeiro. Reflito sobre o assunto da moda, que vem estampado nas capas dos principais jornais e tem gerado muita discussão na sociedade – a violência urbana, que fez o governo federal mais uma vez intervir em solo carioca.
A notícia da vez gira em torno da situação de instabilidade social que assola o Morro da Magueira, isso para usar um termo politicamente correto para o drama que vivem os policiais e a comunidade por esses dias. Dou atenção a este fato, entre tantos, pois posso fazer uma ponte entre o conflito deste ano com um acontecimento de 1965. Há 46 anos o artista plástico neo-concretista Hélio Oiticica retirava a foto do traficante Cara de Cavalo de um jornal da época alterando a sua legenda original do tablóide e reescrevendo a seguinte frase: SEJA MARGINAL. SEJA HERÓI.
“Hoje, recuso-me a qualquer prejuízo de ordem condicionante: faço o que quero e minha tolerância vai a todos os limites, a não ser o da ameaça física direta: manter-se integral é difícil, ainda mais sendo-se marginal: hoje sou marginal ao marginal, não marginal aspirando à pequena burguesia ou ao conformismo, o que acontece com a maioria, mas marginal mesmo: à margem de tudo, o que me dá surpreendente liberdade de ação – e para isso preciso ser apenas eu mesmo segundo meu princípio de prazer: mesmo para ganhar a vida faço o que me agrada no momento.” (Hélio Oiticica – 1968)
Assim o artista define sua marginalidade. É certo que ele procura outras experiências de mundo marginal para poder assumir uma forma mais subjetiva. A sua marginalidade é por opção e está relacionada a liberdade – de ação, expressão e artística.
“Quando digo “posição à margem” quero algo semelhante a esse conceito de Marcuse: não se trata da gratuidade marginal ou de querer ser marginal à força, mas sim colocar no sentido social bem claro a posição do criador, que não só denuncia uma sociedade alienada de si mesma mas propõe, por uma posição permanentemente crítica, a desmistificação dos mitos da classe dominante, das forças da repressão” (Hélio Oiticica – 1968).
Antes de produzir a obra “Homenagem A Cara de Cavalo”, Helio viveu no Morro da Mangueira e até desfilou como passista no carnaval daquele ano, esta foi umas das experiências marginais do artista para poder compor a sua. Certo é que a favela é um problema social e não é justo usa-la como opção estética, assim diziam os críticos. Entretanto, foi pela arte que Hélio Oiticica naquela ano de 1965 tentou dar voz ao mundo marginalizado do Morro da Mangueira levando Cara de Cavalo, manchete de matérias sensacionalistas como todo morador de favela ainda hoje é, a toda a cidade do Rio de Janeiro. Nos jornais da época, misturavam-se personalidades da elite, nas colunas sociais, com mazelas da violência urbana, nas páginas policiais. A diagramação desta mídia pode ser entendida através de dicotomias: primeiro e segundo cadernos; prazeres da zona sul/mazelas do subúrbio; arte de elite/crimes populares.
Helio Oiticica foi marginal na Mangueira para que aquela comunidade pudesse soltar a sua voz. Resultado: foi expulso do MAM junto com passistas e a bateria da escola de samba. Foi Marginal, foi herói. Deu voz aos excluídos e graças a ele podemos ver estampado nos jornais manchetes como esta:
Líder comunitário acusa polícia de truculência em operação na Mangueira,
Brasília - O presidente da associação de moradores do Complexo da Mangueira, José Roque Ferreira, disse que a operação policial realizada nesta terça-feira na favela levou pânico à comunidade. Ele acusou a Polícia Civil de ter invadido o morro com truculência, obrigando os moradores a se fecharem em suas casas.
A incursão causou a morte de três pessoas, “traficantes” segundo a polícia. Mas segundo Ferreira, mais duas pessoas teriam sido baleadas no confronto.
O presidente da associação disse que a operação colocou em risco a vida dos moradores: “A maioria dos tiros da polícia partiu do helicóptero e podia ter atingido pessoas comuns. A polícia tem que agir com inteligência”.
Ferreira cobrou a presença do Estado na favela, mas não apenas da polícia. “A gente quer que a Mangueira seja invadida por serviços sociais, para mostrar que realmente as autoridades públicas querem colocar coisas boas na comunidade”.
Até o momento, a assessoria de comunicação da Polícia Civil não se pronunciou sobre as acusações do líder comunitário da Mangueira.
A ação ocorre no momento em que o Rio recebe reforço de 500 soldados da Força Nacional de Segurança, além do esquema extra de proteção a chefes de Estado que participarão da Cúpula do Mercosul, a cargo do Exército, que patrulha as principais vias da cidade. A Cúpula será realizada na próxima quinta e sexta-feira.

Roger.


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